terça-feira, 8 de setembro de 2015

UM DIA DESSES QUALQUER...

- E nesta foto, com quem você estava brincando?
- Com a água, ora!
- E a sua amiga?
- Com a água dela, prima da minha.
- Como assim?
- Dividimos o céu, as nuvens e a chuva. Cada uma na sua!
- Mas aquilo não era um chuveirão?
- Era sim, chuveiro de verão. Para matar a vontade de tomar banho de chuva...
- Parece que vocês se divertiram muito.
- A gente não queria que acabasse nunca, mas tudo agora tem hora!
- Como assim?
- Não gosto de ouvir: "Hora de recolher os brinquedos, de arrumar a bagunça, de se preparar para dormir"...
- Para esse tipo de coisa nem precisa de relógio, não é? As mães, os pais olham para o tempo e já gritam, não é?!
- E não adianta dizer que só brincamos um pouquinho de nada! Nunca ouvem a gente...
- É que o relógio das horas de brincar não tem ponteiro...
- Que história bizarra é essa, tia?
- Você não sabia? Um dia te conto como descobri isso.
- Duvido que seja verdade, mas deve ser uma boa história! Pode contar, sim.
- Um dia... quem sabe?
- Ah, tia, pode parar com isso!! Nada disso de "um dia desses qualquer"...
- No meu tempo mando eu!
Ela me olhou e não se aguentou. Pulou no meu pescoço, se aconchegou e me disse coisas intraduzíveis, que falam do quanto somos importantes na vida de uma sobrinha...
Abel SidneyGean Carla Sganderla (foto)

terça-feira, 12 de maio de 2015

NOSSOS QUINTAIS
















Nossos quintais

O mistério da criação se manifesta
tanto no sopro do Eterno quanto
nas mãos de uma criança!

O universo que surge do barro
é o mesmo das galáxias que
viajam na imensidão.

Nós, crianças pequenas e grandes
ensaiamos os primeiros passos.

Desatentos, sonhamos construir
casas suspensas em árvores estelares
e mal damos conta de nossos quintais...

Quanto vezes à água deveremos retornar
para que em passos firmes consigamos
(olhos imersos, cravados no chão)

seguros caminhar?

texto: Abel Sidney
foto: Gean Carla

IGARAPÉ


IGARAPÉ

Vim do Sul e
por lá a água
é escassa.

Por aqui me deparei
ainda menino com
nova palavra:
igarapé!

Eram outras águas,
outras paisagens.

No igarapé perto
de casa me banhava
ao cair da tarde. 

Por aqui "se banha".

Noutros tempos e
córregos a gente
"tomava banho",
quando podia.

Fui ficando
e fiquei.

Essas águas
grudam na
vida da
gente!

4 maio 2015

Texto: Abel Sidney
Foto: Gean Carla

domingo, 10 de maio de 2015

CHOCOLATE QUENTE

Nunca o prazer à mesa
se revestiu de tanto
despojamento quanto
naqueles dias.

Dias de suspender as atividades
- foi o que inventamos para
nos salvar dos dias corridos
e, quase sempre, vazios.

Fugimos de casa! Eu e ela e sem
qualquer consciência de culpa.

Lá onde nos abrigamos, combinamos:
proibidos estávamos de falar sobre
coisas que pudessem lembrar
os verbos dever e fazer.

Só nos era permitido erguer os olhos
para fazê-los passear despreocupados
pelas nuvens do céu...

Numa tarde nos ofereceram chocolate.

Sentimos que era quente e doce.

Abolimos a necessidade de se
calcular calorias ou examinar
os ingredientes, na ânsia de
parecermos corretos...

Lambuzados ficamos! Bêbados
de sabores não mais desfrutados...

Ficou daquelas xícaras a certeza
de que o prazer pode ser renovado
num dia qualquer, se pararmos
pra deixar a vida nos invadir.

Texto: Abel Sidney
Foto: Gean Carla

domingo, 5 de abril de 2015

Um blog de fotopoesia...

Olá! Eu sou a Gean Carla, bióloga, professora, e intusiasta da fotografia. Tento traduzir as emoções em imagens na minha rotina, através do olhar fotográfico. 

Um belo dia reencontrei um amigo de ideal pelas redes sociais da vida, quando ele, ao ver algumas imagens que eu publico resolveu fazer uma poesia....

Achei aquela dialética de criação tão interessante que resolvi estimular e, as vezes, até compartilhei e marquei o Abel em algumas fotografias. Resultado: agora somos parceiros neste blog de fotopoesia.

Nosso desafio: traduzir fotografia em poesia, ou do avesso, traduzir poesia em fotografia. Uma espécie de "repente poético".

Guiados pela inspiração recíproca!

Nos acompanhem...

DANÇA

Os pingos dançavam,
reverentes e ofertavam
substrato de vida.

A cena era montada
e o cavalo a tudo
observava.

A mãe consigo levava
no coração do útero
o bebê que nadava feliz
e esperava confiante
na jornada que o aguardava.

O pai, forte sentinela, sabia
o que lhe competia naquele concerto.

A música da dança não deixava dúvida:
a vida prosseguiria com seus encantos
e aquele momento haveria de ser esse
transbordar de alegria e confiança...


texto: Abel Sidney
foto: Gean Carla

sábado, 4 de abril de 2015

SINA DE PEIXE

SINA DE UM PEIXE DO CUNIÃ

balança ao vento?
não parece.

ela e seu gancho firme
apenas registra valores.

não lhe pesa o destino?

simples e leve lhe é a sina.

não estaria ali, no Cuniã, perdida?

quem encontra com o
próprio destino sempre
consigo mesmo
há de estar.

assim refletia o peixe
com suas escamas
ainda úmidas...

no tamanho e tempo certo
seguirá o peixe rumo à mesa
pelas mãos hábeis da cozinheira.

valerá o que pesa este peixe?

a depender do tempero e
daqueles que o compartilharão
valerá ter esperado a festa
de comer dele todo o pirão.

na festa, no encontro dos amigos
aquele em breve se fará memória
e o seu sabor muitas vezes,
em palavras, ressuscitará...

o peixe capturado e levado
fitou a balança e pediu que
ela cumprisse com devoção
o seu nobre e necessário dever.

deixou pender todo o seu peso
e fechando os olhos do coração
imaginou-se no doce calor, em
meio ao molho, no caldeirão...

Texto:Abel Sidney

foto: Gean Carla Sganderla

Cores poéticas

CORES POÉTICAS



De repente, fizeram-me ver
que existem cores poéticas
que se estampam no 
próprio nome.
O amarelo-velho levou-me ao
encontro com meu avô
e seu cachecol.
A rosa-menina aos jardins,
evocando donas de casa que
partilham zelo e beleza e
tornam seus canteiros uma
antessala, uma amostra do que
lhes vai no coração.
O verde-nascendo trouxe
a certeza de outros novos
amanheceres, muito além
desses dias cinzentos,
de homens sombrios.
Por fim, o vermelho-paixão
fez-me pensar que se a vida
faz correr o sangue nas veias
é para nos lembrar que vivemos
de movimento, de impulso, de ação.
Acho que agora posso descansar
um pouco ao contemplar este
azul-entardecer tão nosso,
dos céus de Rondônia...
Salve as cores!!
Abel Sidney
14mar2015