domingo, 10 de maio de 2015

CHOCOLATE QUENTE

Nunca o prazer à mesa
se revestiu de tanto
despojamento quanto
naqueles dias.

Dias de suspender as atividades
- foi o que inventamos para
nos salvar dos dias corridos
e, quase sempre, vazios.

Fugimos de casa! Eu e ela e sem
qualquer consciência de culpa.

Lá onde nos abrigamos, combinamos:
proibidos estávamos de falar sobre
coisas que pudessem lembrar
os verbos dever e fazer.

Só nos era permitido erguer os olhos
para fazê-los passear despreocupados
pelas nuvens do céu...

Numa tarde nos ofereceram chocolate.

Sentimos que era quente e doce.

Abolimos a necessidade de se
calcular calorias ou examinar
os ingredientes, na ânsia de
parecermos corretos...

Lambuzados ficamos! Bêbados
de sabores não mais desfrutados...

Ficou daquelas xícaras a certeza
de que o prazer pode ser renovado
num dia qualquer, se pararmos
pra deixar a vida nos invadir.

Texto: Abel Sidney
Foto: Gean Carla

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